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O longo caminho do parlamentarismo

  • 24 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 1 de dez. de 2025


Ilustração: Rainha Vitória e Dom Petro II
Ilustração: Rainha Vitória e Dom Petro II

A história política de Brasil e Reino Unido mostra dois caminhos bem diferentes para organizar o poder e garantir estabilidade ao longo do tempo. Enquanto os britânicos construíram o parlamentarismo passo a passo, quase como quem vai ajustando a casa ao longo dos séculos, o Brasil tentou versões próprias do modelo, mas nunca encontrou terreno firme para fazê-lo funcionar de verdade. O contraste revela muito sobre tradições, cultura política e até sobre o jeito de cada país lidar com crises — e ajuda a entender por que seguimos rumos tão distintos.


No Reino Unido, o parlamentarismo nasceu devagarinho, ainda na Idade Média, quando o rei precisava consultar nobres e representantes para aprovar impostos e tomar decisões mais delicadas. A coisa foi ganhando corpo ao longo dos séculos, com momentos decisivos, como a Revolução Gloriosa de 1688, que limitou de vez o poder do monarca e garantiu a supremacia do Parlamento. Ali, a monarquia entendeu seu espaço — mais simbólico, menos interventor — e o Legislativo virou o grande centro de decisão política. Os britânicos foram criando instituições estáveis, partidos disciplinados e um sistema que funciona quase como um ritual: o partido que tem maioria governa, o que não tem fiscaliza, e o Primeiro-Ministro só fica enquanto mantiver a confiança da Câmara dos Comuns. Simples, direto e, acima de tudo, tradicional.


No Brasil, a história foi outra. Durante o Império, até existia um Parlamento e gabinetes ministeriais, mas o Poder Moderador — uma invenção bem nossa — colocava o imperador como figura de influência decisiva. Dom Pedro II era respeitado e agia com certo equilíbrio, mas a estrutura não era nem parlamentarista nem presidencialista: ficava ali numa espécie de “meio-termo tropical”, que funcionava, mas não criava instituições independentes e duradouras. Os partidos eram frágeis, muito ligados às elites regionais, e a política não seguia o padrão de alternância e disciplina que se via em Londres.


Décadas depois, já na República, o Brasil tentou de novo: o parlamentarismo de 1961, instalado no susto para contornar a crise com a posse de João Goulart. Só que esse modelo não nasceu de um processo histórico, e sim de um acordo de emergência. Não tinha partido forte, não tinha cultura parlamentarista, e não tinha apoio popular. Durou pouco. Um plebiscito convocado em 1963 devolveu o presidencialismo, mostrando que o país ainda se identificava com a figura de um líder centralizado — algo que, goste-se ou não, virou um traço marcante da política brasileira.


Enquanto isso, o Reino Unido seguiu expandindo seu parlamentarismo com naturalidade. O sistema virou parte da identidade nacional, assim como a monarquia se tornou um símbolo estável, sem interferir diretamente no jogo político. No Brasil, as rupturas foram seguidas — queda da monarquia, República da Espada, República Velha, ditadura Vargas, redemocratização, novo golpe militar, nova redemocratização. A cada mudança brusca, a chance de criar instituições sólidas diminuía.


O resultado dessa comparação é claro: o parlamentarismo britânico se firmou porque teve tempo, tradição e continuidade. O brasileiro não encontrou essas condições. Entre intervenções imperiais, crises políticas e mudanças abruptas de regime, o país acabou consolidando o presidencialismo como solução prática para um território grande, diverso e com disputas regionais intensas. Enquanto Londres cultivou estabilidade, Brasília cresceu no improviso — e as escolhas institucionais acabaram refletindo esse caminho.

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