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Como a IA redefine aprendizagem, gerações e autonomia intelectual

  • Foto do escritor: Canal do Rio Vinicius
    Canal do Rio Vinicius
  • 22 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura


Durante séculos, o conhecimento humano foi acumulado de forma lenta e cumulativa. A experiência dos mais velhos tinha valor prático porque o mundo mudava pouco ao longo de uma vida. Esse modelo começou a se romper com a Segunda Revolução Industrial, a partir do final do século XIX, quando avanços como eletricidade, motores, telecomunicações e produção em massa passaram a tornar habilidades e saberes obsoletos em poucas décadas. O historiador Eric Hobsbawm descreve esse período como o início de uma era em que o passado deixa de ser guia confiável para o futuro.


No século XX, com a revolução digital, essa tendência se acelerou. Computadores, internet e software deslocaram o valor social da experiência acumulada para a capacidade de atualização constante. O sociólogo Zygmunt Bauman chamou esse fenômeno de “modernidade líquida”, marcada pela instabilidade e pela rápida substituição de referências.


Agora, com a popularização da inteligência artificial generativa, muitos estudiosos apontam que vivemos uma segunda ruptura, ainda mais profunda: não apenas o conhecimento envelhece rápido, como também pode ser delegado a sistemas artificiais.


Do acúmulo de saber ao operador de adaptação


Ferramentas baseadas em IA permitem que qualquer pessoa acesse explicações, sínteses e análises em segundos — algo que antes exigia anos de estudo formal ou acesso privilegiado a especialistas. O economista Tyler Cowen e o cientista da computação Erik Brynjolfsson destacam que a vantagem competitiva humana deixa de estar no armazenamento de informação e passa a residir na capacidade de formular problemas, julgar respostas e tomar decisões.


Nesse cenário, o ser humano tende a assumir um novo papel: operador de adaptação constante. Em vez de dominar profundamente um campo por décadas, precisa navegar entre domínios, reinterpretar contextos e ajustar decisões com base em informações sempre mutáveis. Isso tende a reduzir diferenças puramente geracionais a partir da geração X, já que o custo de atualização técnica cai drasticamente.


Autonomia intelectual: o novo divisor social


Se a IA nivela o acesso ao conhecimento, ela não nivela a capacidade de pensar sobre ele. Surge, então, um conceito central: autonomia intelectual. O filósofo Immanuel Kant já definia autonomia como a capacidade de usar o próprio entendimento sem a tutela de outro. No contexto atual, essa definição ganha nova relevância.


Autonomia intelectual não é sinônimo de escolaridade ou inteligência elevada. Trata-se da capacidade de formular perguntas próprias, avaliar a qualidade de respostas, integrar informações contraditórias e assumir responsabilidade pelas decisões tomadas. O psicólogo Daniel Kahneman, ao diferenciar pensamento rápido e pensamento lento, mostra que a tendência humana é aceitar explicações fluentes e coerentes sem exame crítico — algo que sistemas de IA fazem com grande eficiência retórica.


Quando a autonomia começa a escorregar


Pesquisadores em educação e cognição alertam que até pessoas intelectualmente autônomas podem escorregar para a dependência sem perceber. Um dos primeiros sinais é a troca da investigação direta pela simples curadoria de resumos e sínteses. Outro é a confusão entre velocidade e profundidade: decisões rápidas passam a substituir processos deliberativos.


Há também a delegação da fricção cognitiva — o desconforto de lidar com contradições — para a ferramenta, pedindo que ela “organize” ou “harmonize” tensões que ainda não foram compreendidas. O educador Neil Postman já alertava que tecnologias não apenas resolvem problemas, mas redefinem o que consideramos problema. Quando a ferramenta elimina o conflito intelectual cedo demais, o pensamento se empobrece.


Outro sinal é a repetição de bons argumentos sem revalidação contextual, além da proteção da identidade intelectual: posições passam a ser defendidas mais como traços identitários do que como hipóteses revisáveis. A busca por explicações excessivamente limpas e coerentes também se intensifica, apesar de a realidade social e histórica ser inerentemente ambígua, como lembra o sociólogo Edgar Morin em seus estudos sobre complexidade.


Uma nova elite cognitiva?


O resultado desse processo pode ser o surgimento de uma elite cognitiva, não definida por renda ou diplomas, mas pela capacidade de manter autonomia intelectual em um ambiente de abundância informacional. Brynjolfsson e Andrew McAfee observam que tecnologias avançadas tendem a ampliar diferenças entre quem sabe usá-las criticamente e quem apenas as consome de forma passiva.


Diferentemente das rupturas anteriores, o fator decisivo já não é a idade, mas a postura mental. Gerações distintas passam a se misturar funcionalmente, enquanto a divisão real se estabelece entre aprendizes contínuos e usuários delegantes.


Um desafio histórico em aberto


A delegação do conhecimento à IA não torna o ser humano irrelevante, mas desloca o eixo de valor para julgamento, responsabilidade e sentido. Como toda grande transformação tecnológica, seus efeitos não são automaticamente emancipatórios nem necessariamente regressivos. Como destacou o historiador Melvin Kranzberg, “a tecnologia não é boa nem má — e também não é neutra”.


O desafio contemporâneo é garantir que a facilidade de acesso ao conhecimento não resulte na perda da capacidade de pensar por conta própria. Nessa segunda ruptura, mais do que nunca, o futuro pertence menos a quem sabe mais — e mais a quem sabe pensar melhor.

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