O boi, o metano e o debate ambiental: o que dizem os dados e a ciência
- Canal do Rio Vinicius

- 22 de dez. de 2025
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A pecuária bovina costuma aparecer no centro do debate ambiental como uma das grandes vilãs das emissões de gases de efeito estufa. Vídeos virais, como os que mostram a queima de gases liberados por bois, reforçam a percepção de que o animal seria um problema climático grave. No entanto, quando se analisa o processo de forma técnica, o quadro se mostra mais complexo — e menos alarmista.
Ruminantes como bois e vacas produzem metano (CH₄) durante a digestão. Esse gás surge da fermentação do capim no rúmen, um compartimento do estômago onde bactérias quebram fibras vegetais que o ser humano não consegue digerir. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 90% do metano emitido pelos bovinos é liberado por eructação (arroto), e não por flatulência, como costuma ser divulgado de forma simplificada.
O ponto central, frequentemente omitido no debate público, é que esse metano faz parte do chamado ciclo biogênico do carbono. O carbono presente no gás não é novo: ele foi previamente capturado da atmosfera pelo capim durante a fotossíntese. Após cerca de 10 a 12 anos na atmosfera, o metano se oxida e retorna à forma de dióxido de carbono, que pode novamente ser absorvido pelas plantas. Esse conceito é amplamente descrito pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que diferencia o carbono biogênico do carbono fóssil proveniente da queima de petróleo, carvão e gás natural, que se acumula por séculos.
Em um cenário sem pecuária, a biomassa vegetal também se decomporia, liberando gases — inclusive metano, dependendo das condições do solo. O boi, portanto, não cria o carbono, mas antecipa e reorganiza um processo natural de decomposição.
Casos em que o gás é inflamado, mostrados em vídeos, geralmente envolvem situações extremas de timpanismo — um distúrbio digestivo caracterizado pelo acúmulo anormal de gases no rúmen. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), trata-se de uma emergência veterinária associada a falhas de manejo alimentar, e não de uma condição normal em animais saudáveis.
Outro aspecto pouco discutido é o alto aproveitamento do boi ao longo de toda a cadeia produtiva. Segundo dados da indústria frigorífica brasileira e estudos da Embrapa Gado de Corte, mais de 90% do animal é aproveitado direta ou indiretamente. Além da carne, subprodutos abastecem setores como couro, calçados, indústria automobilística, farmacêutica, cosmética e química. O sebo bovino é utilizado na produção de biodiesel, enquanto o esterco pode ser transformado em biogás e biofertilizante.
O aproveitamento energético do metano, aliás, já é uma realidade. Sistemas de biodigestão são amplamente utilizados em granjas e vêm ganhando espaço em confinamentos e fazendas leiteiras. O Ministério de Minas e Energia reconhece o biogás e o biometano como fontes estratégicas de energia renovável, capazes de reduzir emissões ao capturar o metano antes que ele chegue à atmosfera.
A própria estrutura do rebanho também mudou nas últimas décadas. O avanço da inseminação artificial reduziu drasticamente a necessidade de touros, diminuindo a presença de machos inteiros e o descarte desse tipo de animal. Segundo a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), milhões de matrizes são inseminadas anualmente no país, aumentando eficiência genética e produtiva.
Especialistas ressaltam que o impacto climático da pecuária está menos ligado ao animal em si e mais ao uso da terra e ao manejo. O IPCC e a FAO apontam que desmatamento, expansão desordenada e baixa produtividade são os principais fatores de pressão ambiental. Sistemas bem manejados, com rebanho estável, recuperação de pastagens e integração lavoura-pecuária-floresta, tendem a reduzir significativamente o impacto por quilo de alimento produzido.
O debate, portanto, não se resolve com slogans ou imagens de choque. A ciência indica que o boi não é um agente isolado de destruição ambiental, mas parte de um sistema biológico e produtivo complexo, que pode ser aperfeiçoado. Como resumem pesquisadores da Embrapa, o desafio não é eliminar a pecuária, mas torná-la cada vez mais eficiente, integrada e tecnologicamente orientada.







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