Arábia Saudita: Entre a modernização e o peso da tradição
- 21 de nov. de 2025
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A Arábia Saudita vive uma transformação silenciosa, mas profunda. Sob a liderança do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman (MBS), o reino mais conservador do Golfo embarcou em um projeto ambicioso: modernizar sua economia e flexibilizar costumes sociais, sem abrir mão do controle político.
O motor dessa mudança é a Visão 2030, plano lançado em 2016 para reduzir a dependência do petróleo, que ainda responde por cerca de 40% do PIB e 70% das receitas governamentais. A meta é diversificar a economia, atrair investimentos e transformar o país em um polo global de turismo e tecnologia. Em 2024, o PIB saudita chegou a US$ 1,23 trilhão, com um PIB per capita de US$ 35 mil (corrente) e US$ 62 mil em paridade de poder de compra, colocando o país entre as 20 maiores economias do mundo. O IDH é de 0,854, considerado muito alto.
Para viabilizar essa abertura econômica, reformas sociais se tornaram inevitáveis: mulheres conquistaram o direito de dirigir em 2018, cinemas reabriram após décadas de proibição e eventos culturais passaram a integrar a rotina saudita. A participação feminina no mercado de trabalho saltou para 35%, contra menos de 20% há dez anos. O turismo também cresce: foram 30 milhões de visitantes em 2024, impulsionados por megaprojetos como NEOM.
Mas essa modernização tem limites claros. A Arábia Saudita continua sendo uma monarquia absoluta, sem partidos políticos ou eleições nacionais. A repressão a opositores persiste, e a liberdade de expressão é quase inexistente. Em 2024, o país registrou 330 execuções, segundo organizações de direitos humanos. A estratégia é clara: modernizar sem democratizar.

Geopoliticamente, o cenário favorece MBS. Os Acordos de Abraão, que aproximaram países árabes de Israel, reduziram tensões regionais. Além disso, o reino conta com um duplo apoio estratégico: EUA, garantindo segurança militar, e China, interessada na estabilidade para manter o fluxo energético e expandir sua influência comercial. Essa convergência de interesses diminui o risco de sabotagem externa, como ocorreu com o Irã após a Revolução Islâmica de 1979.

Especialistas apontam que, se a Visão 2030 for bem-sucedida, a Arábia Saudita pode trilhar um caminho semelhante ao das monarquias europeias do século XIX: uma transição gradual para um modelo híbrido, com parlamento consultivo e eleições limitadas, mantendo a família real como símbolo. No entanto, o futuro não está garantido. Resistência interna, choques econômicos ou crises regionais podem frear ou até reverter esse processo.
Por ora, o reino segue em um delicado equilíbrio: abrindo portas para o mundo, mas mantendo fechadas as janelas da política.







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