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Do altar aos confins do cosmos: como um padre ajudou a fundar a teoria do Big Bang

  • 1 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 23 de dez. de 2025



Quando se fala em origem do Universo, a imagem comum é a de laboratórios modernos, telescópios espaciais e cientistas de jaleco branco. Poucos imaginam um padre católico como peça central dessa história. Mas foi exatamente isso o que aconteceu. No início do século XX, um jovem sacerdote belga chamado Georges Lemaître — matemático, físico e mais tarde membro da Pontifícia Academia de Ciências — apresentou uma das ideias mais revolucionárias da história humana: a de que o Universo nasceu de um estado inicial extremamente denso, que ele chamou de “átomo primordial”. Era a semente do que mais tarde seria conhecido como teoria do Big Bang.


A trajetória de Lemaître mergulha em um dos temas mais complexos da história intelectual ocidental: a relação entre ciência e religião. E revela como, em certos momentos, essas duas esferas que muitos consideram incompatíveis caminharam surpreendentemente lado a lado.


O padre que viu o Universo expandir


Em 1927, quando a maioria dos cientistas ainda acreditava em um cosmos estático, Lemaître publicou um artigo ousado. Baseando-se na relatividade geral de Einstein e em observações astronômicas emergentes, argumentou que o Universo estava se expandindo. Isso significava que, se voltássemos o filme do cosmos no tempo, toda a matéria e energia deveriam convergir para um ponto inicial. A ideia era inovadora, elegante — e profundamente perturbadora para a física da época.


Einstein inicialmente rejeitou a hipótese. Afirmou que os cálculos de Lemaître eram corretos, mas que suas “conclusões físicas eram abomináveis”. A ironia histórica é que, poucos anos depois, novas observações confirmariam a expansão, e Einstein reveria sua posição. O padre cientista estava certo.


Mas havia algo ainda mais delicado em jogo. A noção de um “começo” do Universo poderia facilmente ser interpretada como uma confirmação religiosa da Criação. E foi exatamente o que começou a acontecer.


O entusiasmo de Pio XII


No início da década de 1950, o Papa Pio XII, atento aos avanços científicos, enxergou na teoria do “átomo primordial” uma oportunidade de diálogo entre fé e ciência. Em discursos públicos, destacou que as descobertas cosmológicas pareciam apontar para um início absoluto do cosmos — algo que, de certa forma, harmonizaria ciência moderna e tradição cristã.


A imprensa da época registrou a surpresa: o chefe da Igreja Católica — instituição frequentemente lembrada por conflitos históricos com cientistas — parecia abraçar com entusiasmo uma teoria científica de ponta.


Mas nem todos estavam confortáveis com essa aproximação. E o principal deles era justamente o autor da teoria.


Lemaître intervém: ciência não é catecismo


Apesar da batina, Lemaître era um defensor convicto da autonomia da ciência. Considerava que fé e investigação científica respondiam a perguntas diferentes e não deveriam se sobrepor. Quando soube dos discursos do Papa, ficou preocupado. Temia que a teoria fosse vista como uma construção religiosa disfarçada — o que, segundo ele, seria um desastre para sua aceitação entre os cientistas.


Em uma atitude rara, Lemaître procurou o Vaticano. Em conversas com conselheiros próximos e, posteriormente, com o próprio Pio XII, explicou os riscos de associar uma teoria física a um dogma teológico. Argumentou que o papel da ciência não é provar a existência da Criação, mas compreender o funcionamento do Universo.


O Papa ouviu. E recuou.


Em discursos posteriores, Pio XII adotou tom mais comedido, evitando vincular explicitamente o Big Bang à doutrina cristã. Era uma vitória silenciosa de Lemaître — e um marco na relação entre ciência e religião.


Um passado com sombras, um presente mais pragmático


A história entre Igreja e ciência é frequentemente lembrada por episódios de conflito, como o caso Galileu. Mas, como ressaltam historiadores, essa relação é mais complexa do que a caricatura popular. O Vaticano criou universidades, preservou manuscritos científicos ao longo da Idade Média e mantém até hoje instituições dedicadas à pesquisa, como o Observatório do Vaticano e a Pontifícia Academia de Ciências, que reúne especialistas do mundo todo — muitos deles ateus ou agnósticos — para discutir temas científicos de ponta.


A postura atual da Igreja Católica é explícita: o método científico é válido e legítimo. A teoria da evolução, a cosmologia moderna, a idade da Terra e avanços da genética são amplamente aceitos. A fé, dizem os documentos oficiais, ocupa um espaço distinto — o da ética, do sentido e da espiritualidade — sem pretensões de substituir a ciência.


Nesse contexto, Lemaître se tornou um símbolo discreto, porém decisivo. Sua vida lembra que intelectuais religiosos podem fazer contribuições centrais à ciência, e que a Igreja, mesmo carregando uma história de erros, aprende e se adapta.


O legado de uma fronteira porosa


A história do Big Bang é frequentemente apresentada como um triunfo da ciência sobre o desconhecido. Mas, ao revisitar a figura de Georges Lemaître, ela também se revela como uma história sobre fronteiras: entre fé e razão, tradição e inovação, autoridade religiosa e liberdade intelectual.


Foi um padre quem lançou as bases da teoria que explica o nascimento do cosmos. Foi o mesmo padre quem pediu ao Papa que não a transformasse em argumento teológico. E foi o Papa quem o ouviu.


Em um tempo em que debates entre ciência e religião são frequentemente polarizados, a trajetória de Lemaître — e o episódio com Pio XII — mostra que essas duas esferas nem sempre vivem em conflito. Às vezes, caminham lado a lado. E, quando dialogam, podem produzir não apenas tensões, mas também avanços inesperados e histórias que desafiam nossas noções prévias.

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